Eu lhe escrevi. Porém esqueci de dizer que ainda não te esqueci. Tu permaneces em mim como mancha escura na alma, como algo que desmancha na boca, sabor doce, porém quando se engole é o gosto amargo que prevalece por horas. És para mim, a maior das tempestades que invadem o meu jardim, a vergonha de um amor não resolvido, de um adeus não dito, de uma vida passada e deixada para trás, porém não por ambos. És para mim a mais irremediável tristeza, a mais louca saudade.
Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.
-Vamos brincar de amor? Eu te amo!
-Eu acredito.
-Você é tudo pra mim!
-Eu acredito.
-Nunca vou te deixar!
-Eu acredito.
(Aparece uma vadia qualquer)
-Você me deixa e eu choro.